Cesário Verde – Poeta do real, incompreendido e ignorado

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Se eu não morresse, nunca! E eternamente buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!

No próximo sábado, dia 22 de Agosto, lançamos o convite para uma deambulação sentimental pela Baixa à procura de quadros revoltados que poderiam ser assunto para o poeta Cesário-Sr. Verde, empregado de comércio.  Inscrições limitadas.

Epidemias, perturbações políticas e sociais

“Permitta Deus que Portugal nunca mais tenha occasião de sentir a renovação de scenas de tanta dor e luto.”

Desta forma pungente começava o relatório sobre a epidemia de febre-amarela ocorrida em Lisboa no ano de 1857. Este surto obrigaria a família de Cesário Verde, pais e irmãos, a uma debandada da capital face ao rápido risco de contágio. O poeta tinha apenas 2 anos mas a memória desses dias foi sempre lembrada pelas conversas da família, alimentada pelas constantes mudanças originadas pelos dramas vividos da doença em casa e das doenças na cidade.

O tempo em que o poeta viveu foi um tempo conturbado pelas vicissitudes das epidemias cíclicas e das perturbações políticas com o crescimento das contestações socialistas e republicanas à Igreja e monarquia. Os círculos intelectuais na capital eram ainda dominados por grupos de românticos e realistas, escritores, poetas, jornalistas, que olhavam com um certo desdém para poetas “verdes”. Cesário seria trazido a estes círculos pela mão de Silva Pinto que o apresentará a Guerra Junqueiro, Ramalho Ortigão, Manuel de Arriaga e outros. Mas a integração e participação do jovem poeta será praticamente anulada pelos ataques ferozes à novidade da sua poesia e que foi alvo de destrate e de provocações nos jornais da época. Cesário foi escorraçado e denegrido na sua honra, de homem e de poeta, e essa ostracização reflectir-se-á na sua poesia.

O Poeta incompreendido

A incompreensão da sua poesia e o “génio ignorado” de poeta serão persistentes no tempo. Serão os poetas do Orpheu a resgatar a poesia de Cesário Verde do esquecimento e a descobrir a originalidade de uma escrita que poderá ser vista como a ponte entre a poesia do século XIX e do século XX. Cesário é o mestre de Fernando Pessoa e os heterónimos deste serão os heterónimos de Cesário. A tentativa de caracterização dir-se-á cheia de ambiguidades ainda a sentir o peso de uma classificação emocional por parte do editor e amigo Silva Pinto, responsável pelo O Livro de Cesário Verde (1ª edição, 1887). Estaríamos perante um novo modo de poesia? Ou perante uma poesia original e por isso não-catalogável? Poesia realista, naturalista, simbolista, modernista? “Poeta do real” que nas suas próprias palavras pinta “quadros por letras, por sinais”. 

Se Eça de Queirós nos seus romances evoca a Lisboa dos teatros, das casas burguesas, das relações das elites, das esposas mal-casadas e nos seus affairs com jovens diletantes, em Cesário Verde a cidade revela-se ao entardecer nos movimentos dos operários, das “impuras”, do cheiro a gás, da podridão material e social, da doença e do cansaço pelo sofrimento do outro. A poesia citadina de Cesário leva-nos a deambular pela Baixa outrora dos armazéns, escritórios e lojas, do afã dos trabalhadores da beira-rio, da cidade industrial que cresce para Alcântara, do caminho de ferro a marcar o progresso. Sem juízos de valor, Cesário revela-nos aqueles e aquelas que vivem na cidade, que lhe dão o pitoresco (actrizes ou varinas) ou denunciam a miséria (pobres e mendigos). O Livro servirá como guia na materialização das sensações do poeta numa Lisboa hoje despida dessa massa humana e onde os silêncios são de “campo na cidade” como diria Bernardo Soares, espelho de um Cesário “empregado de comércio”

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